sábado, 5 de dezembro de 2015

- ARQUITETURA - Árvore da Vida: Capela do Seminário Conciliar de Braga


Árvore da Vida: Capela do Seminário Conciliar de Braga

Texto: Joaquim Félix de Carvalho
 
Do desconforto ao desafio

Tal como as plantas, a Árvore da Vida germinou lentamente numa sensibilidade que se desenvolveu ao longo dos últimos cinco anos. Como professor de Liturgia e Sacramentos, no Seminário e na Faculdade de Teologia, na unidade curricular de Pastoral Litúrgica, sensibilizava os alunos para, entre outras matérias, cuidar os espaços litúrgicos. Consciente do grande significado da arquitetura religiosa contemporânea, quer para a expressão da fé que se professa e testemunha, quer para o diálogo com os artistas e a cultura, apresentava-lhes uma série de capelas e igrejas de grandes arquitetos estrangeiros e também portugueses: Gaudi, Rudolf Schwartz, Corbusier, Henry Matisse, Maurice Novarina, Alvaar Aalto, Rothko, Mario Botta, Constantino Ruggeri, Giovanni Michelucci, Décio Tozzi, Jonh Pawson, Tadao Ando, Steven Holl, Peter Zunthor, Richard Meyer, Massimiliano Fuksas, Paolo Zermani, Renzo Piano, Rafael Moneo, Nuno Teotónio Pereira, Álvaro Siza, José Fernando Gonçalves, Paulo Providência, Bernardo Pizarro Miranda, entre outros. Várias obras, sobretudo em Portugal e Itália, foram objeto das nossas visitas de estudo.

A determinada altura, apercebemo-nos que o maior conhecimento destes edifícios aumentava o nosso desconforto em relação à qualidade das capelas do Seminário construídas nos anos 90’ do século passado. Decidimos então aprofundar a coerência entre aquilo que se ensinava e a expressão litúrgica praticada, com a reorganização espacial da capela de S. Pedro e S. Paulo, para toda a comunidade, e a construção de uma nova, no lugar de duas, para o Biénio e o Triénio, a usar de forma rotativa.

Objetivos da comunidade Seminário

Em termos de objetivos, a nova capela, assim pensávamos, haveria de promover uma sempre mais renovada espiritualidade, a partir da ação litúrgica propriamente dita, trabalhada na expressão da ars celebrandi e vivida como a primeira expressão teológica dos mistérios da Fé. Além disso, tendo em conta que o Seminário é escola de sucessivas gerações de pastores, estamos persuadidos de que os novos presbíteros, nas comunidades para onde forem enviados, tudo farão por implementar, salvaguardadas as circunstâncias específicas, a reforma litúrgica conciliar nos aspetos referidos. E, bem assim, hão de valorizar os bens culturais do inestimável património da Igreja e, eventualmente, patrocinar a produção de outros, num registo pautado pela qualidade e pelo diálogo com os artistas. Tudo isto em sintonia com o veemente apelo de Bento XVI, que se coloca na esteira dos esforços do Beato João Paulo II e de Paulo VI.

Assumido o desafio, entrámos em contacto com os arquitetos e passámos aos estudos. Durante um ano e meio, multiplicaram-se as leituras sobre o tema. Era importante ter em conta os principais debates sobre arquitetura religiosa no século XX, desenvolvidos sobretudo nas áreas germânica, francófona e italiana, e alargar os conhecimentos em relação à primeira década do século XXI. Foi o que fizemos em constante partilha.

Ideia matricial do fundamento teológico

Reunida tão grande quantidade de informação, tornou-se indispensável adotar uma ideia que servisse de base ao projeto da nova capela. Foi uma tarefa difícil, pois fazer opções comporta sempre riscos.

A teologia litúrgica desenvolvida na Constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio do Vaticano II, forneceu-nos o fundamento teológico para o programa da capela: a história da salvação, centrada no mistério pascal de Jesus. Assim lemos no n. 5:

«Deus, que ‘quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade’ (I Tim 2,4), ‘tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos aos nossos pais pelos profetas’ (Hebr 1,1), quando chegou a plenitude dos tempos, enviou o Seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo, a evangelizar os pobres, curar os contritos de coração, como médico da carne e do espírito, mediador entre Deus e os homens. A sua humanidade foi, na unidade da pessoa do Verbo, o instrumento da nossa salvação. Por isso, em Cristo ‘se realizou plenamente a nossa reconciliação e se nos deu a plenitude do culto divino’. Esta obra da redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus, prefigurada pelas suas grandes obras no povo da Antiga Aliança, realizou-a Cristo Senhor, principalmente pelo mistério pascal da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição dos mortos e gloriosa Ascensão, em que ‘morrendo destruiu a nossa morte e ressurgindo restaurou a nossa vida’. Foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o sacramento admirável de toda a Igreja» (SC 5).

Para traduzir esta ideia matricial, explorámos o relato da criação, do Livro do Génesis: a capela corresponde ao sétimo dia, consagrado ao repouso doxológico. Na caixa envolvente, em matéria cimentícia de tons e relevos caóticos, o programa icónico explora, num políptico da pintora Ilda David’, motivos dos primeiros seis dias. Na recapitulação simbólica de todo o tempo, nós encontramo-nos no espaço dedicado à nossa santificação e à glorificação de Deus, isto é, no jardim terrestre que, pela tipologia icónica do ambão, se transforma no jardim do tempo pascal. Somos desta forma convocados para fazer a trajetória do caos ao cosmos, colocando-nos no mundo na prossecução da obra criadora de Deus.

Enunciação dos elementos mais relevantes

A liturgista Cettina Militello escreve, no seu livro La casa del popolo di Dio. Modelli ecclesiologici, modelli architettonici, que «dificilmente um artista, um arquiteto nos dá, além da obra de arte que produz, uma detalhada interpretação daquilo que o induziu, passo após passo, a fazer a sua escolha» (p.245). Sem pretender entrar em detalhes hermenêuticos, gostaria de enunciar alguns dos elementos mais significativos da capela, quer da arquitetura quer do programa icónico.

Simbólica arquitetónica

- A biblioteca espiritual, que se encontra sob a capela, no banco do nártex e no lado nascente, é alicerce duma cultura sapiencial que cresce na leitura.

- O eixo oblíquo, de porta a porta nos ângulos, de forma a explorar o caminho mais longo no interior. Como nos labirintos nas catedrais da Idade Média ou nos pavimentos cosmatescos nas basílicas e capelas romanas, o mistério procura-se, mesmo se a passo de dança na aproximação ao altar.

- As paredes, com espessura variável entre os 5 e 200 cm, construídas com luz e matéria, duma transparência e dinamismo pascal.

- A clareira, nas alturas, que assinala o itinerário entre as árvores do jardim.

- A porta de entrada sem portadas, porque aberta pelo Crucificado, como se lê na carta do Espírito à Igreja de Filadélfia, no livro do Apocalipse: «Eis que coloquei diante de ti uma porta aberta que ninguém pode fechar» (Ap 3,8).

- A pequena câmara num dos ângulos interiores, destinada à Reserva Eucarística, com um banco só, proporciona o diálogo íntimo e personalizado com Jesus.

- O altíssimo canal de luz que ilumina, numa perspetiva zenital, o nártex.

- A caixa de luz do andar superior que, desde os corredores suspensos, garante o necessário diálogo com a cidade.

- As pedras adotadas nos degraus, na pia de água benta, no ambão e no altar, são pedras rejeitadas. Em matéria negra com cristais brancos, são nódulos que aparecem nas cavas de granito da região de Amares.

- Na iluminação vinca-se a apostolicidade da assembleia, com doze lâmpadas; e a dimensão trinitária do mistério eucarístico, com três lâmpadas sobre o altar. 

Programa icónico

- A inspiração bíblica e patrística das pinturas de Ilda David’: além do já referido político da criação, as miniaturas, que ladeiam os aros da porta de entrada, com os querubins da espada flamejante, que Deus colocou na porta do jardim terrestre após a expulsão de Adão e Eva, para, como se lê em Gn 3,24, «guardar o caminho da árvore da vida»; e, em grande destaque, o tríptico da árvore da vida, que acompanhou o Breve Sumário da História de Deus, peça de teatro de Gil Vicente, levada a palco nos teatros nacionais S. João no Porto e D. Maria II em Lisboa; tríptico com a árvore da vida a abrir-se tipologicamente na árvore da Cruz, com três motivos do mistério pascal, um em cada pintura.

- O perfil metálico de S. João Maria Vianney, padroeiro dos párocos, recortado pelo escultor Manuel Rosa, a partir duma escultura, em mármore branco, que se encontra em Ars.

- Os grafitos, escavados pelo escultor Asbjörn Andresen, na matéria cimentícia, com o versículo primeiro do Génesis, na coluna, e uma seta apontada a Este, na parede do lado da porta estreita, para indicar que o caminho, por longo que seja, está sempre escatologicamente orientado para o Sol Nascente, Jesus Cristo.

- A sombra de uma mão, na coluna do nártex, decalcada pela humidade da mesma após a conclusão dos grafitos, fixada a lápis de carvão, como sinal para a humanidade de que alguém se esforçou para alcançar a beleza deste lugar.

Peças litúrgicas

- O ambão, colocado a Sul, inspirado num arquétipo iconográfico antigo: o túmulo aberto da manhã de Páscoa, cuja grande pedra, com mais de trezentos quilos, é escabelo dos pés daquele que lê ou proclama a Palavra da Vida. Como o túmulo de Jesus foi colocado também num jardim, o espaço recebe um significado novo: faz com que o jardim pascal se sobreponha ao jardim terrestre. E, assim, melhor se compreende a ligação entre a antiga e a Nova Aliança. Hoje, como a Igreja que vive da escuta, sabemos que «quando é lida a divina Escritura, Deus torna a passear no jardim terrestre» (S. Ambrósio). Acolhemo-Lo, agora, sem que o rumor dos seus passos desperte a nossa vergonha. Porque Ele nos anuncia que Cristo vive, nos pacifica e acompanha.

- O altar configura-se como um verdadeiro monumento à teologia eucarística: na vertical, trabalha-se a dimensão sacrificial, com uma pedra dramática que ostenta uma esquina partida (lado aberto de Cristo); na horizontal, explora-se a dimensão convivial, a partir do arquétipo da mesa maceira, em carvalho nacional, com tampo em duas tábuas e um nó numa delas. Um laço, que entra tanto na pedra quanto na madeira, sublinha a unidade intrínseca destas duas dimensões do sacramento da Eucaristia.

- O sacrário é feito de madeira de freixo, com forma cúbica. Inspira-se no capítulo X da Didaché, onde, numa belíssima oração de ação de graças, se pede que o Espírito reúna a Igreja «dos quatro ventos da terra». A sua abertura faz-se de forma ritualizada, com a possibilidade de abrir quatro das seis faces. Um rolo de madeira de oliveira, com aros e copa de prata dourada, conserva dentro do cubo o Pão Eucarístico.

- As galhetas e o jarro para o lavabo resultam da obra conjunta da barrista barcelense, Júlia Ramalho, e do escultor norueguês Asbjörn Andresen.

- O cálice, a patena, a custódia e o turíbulo serão de prata, obra de uma oficina de Braga, a partir de desenhos já entregues pelo escultor Asbjörn Andresen.

- O órgão é um positivo com apenas um registo e meio, com tubos em metal e madeira. O organeiro Pedro Guimarães, de Esmoriz, encontra-se a construi-lo. A caixa estrutural, sem decoração, é em carvalho francês. As teclas são forradas a buxo e as escuras em ébano. Mais árvores para o jardim frondoso.

- O candelabro pascal e as vestes litúrgicas estão ainda em estudo.

Síntese final

Se pretendesse apresentar a capela num simples esboço hermenêutico, teria de recorrer ao último parágrafo dum capítulo intitulado Di Kaos e di Kosmos. Ad amica teosofa, do livro Scritti di Estetica e di Poietica. Su l'arte di qualità liturgica e i beni culturali di qualità eclesiale, de Crispino Valenziano, meu professor no Pontifício Instituto Litúrgico Santo Anselmo, em Roma, com quem fui dialogando ao longo da realização da capela. Para que se entenda, é suficiente dizer que as palavras são de um Bispo que responde a uma amiga, sobre a fecundidade do caos: «Interrogaste-me sobre o caos e a sua virtualidade, e eu te respondi sobre o cosmos e as suas realizações. Penso que a inter-relação é esta (a que lhe revelou ao longo do capítulo) e faz a hermenêutica que tu desejas. Por isso, auguro que este meu conceito te ajude a mostrar a glória divina que neste intricado bosque estetiza a nossa procura e poietiza a nossa espera.»

 

 

A seta grafitada por Asbjörn Andresen faz-me lembrar um outro parágrafo de Manuel Zimbro, que destaco do texto intitulado A Sombra da Flecha, que se encontra no catálogo da Exposição «Além da Sombra», de Lourdes Castro, realizada no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. O texto diz o seguinte: «Num Caminho, seja vereda, ponte ou destino, o que importa, em primeiro lugar, vem do que por lá passa. Depois, porque permite ao que passa, passar de um lugar para um outro. Caminhar, ir mais longe, só é possível graças ao fogo que anima as mais íntimas disposições».

 

Sim, o fogo do Espírito Santo anima as nossas mais íntimas disposições para, como peregrinos sobre a terra, fazermos o caminho mais longo no interior, através do jardim pascal, entre o ambão e o altar. Ambas as portas abertas também nos convocam para a saída: a mais larga, para anunciarmos, com ardor missionário, a mais bela notícia aos irmãos no exercício da caridade; a mais estreita, para prosseguirmos o caminho em direção à cidade do Alto, a Jerusalém celeste, na esperança da criação dos novos céus e da nova terra.

 

Para não me alongar mais, gostaria de dizer apenas que esta capela é, nas palavras do arquiteto Vittorio Gregotti, «uma metáfora de eternidade». Para contemplá-la bem, não podemos cometer duas outras renúncias, denunciadas por Gregotti a propósito das falhas da arquitetura contemporânea, a saber: a primeira, «a renúncia ao desenho de modificação do presente como projeto de confronto crítico com o contexto»; a segunda, «a renúncia à capacidade de ver pequeno, com precisão entre as coisas e portanto a necessidade da regra que funda a exceção não ostentada».

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Árvore de Natal


9.º CONVÍVIO - 1 DEZ 2011

Aí está!

Novo covívio se aproxima. E a novidade chegou através da seguinte informação:

“Amigo e Companheiro:

Como de costume aceita o abraço de pura e sincera amizade destes teimosos que insistem em não perder a vontade e teimosia de quererem juntar em convívio os Companheiros de anteriores presenças.

Como é habitual realizar-se-á no próximo dia 1 de Dezembro de 2011, mais um convívio que será o 9.º, a efectuar na QUINTA DA MACHADA (vidé mapa), sita no Lugar de Ferreiro, Freguesia de S, Julião de Passos….”

Pois é, o tempo passa e todos esperamos que este novo invento seja mais um salutar encontro de Companheiros, ex-militares do R.I. n.º 8 e D.R.M. 8.

O Programa:

Concentração é às 9H30, junto ao Museu D. Diogo de Sousa – Braga (como em 2010).

Missa às 10H00, na Capela S. Sebastião das Carvalheiras, em memória dos Companheiros que deixaram o n/ convívio.

VISITA GUIADA AO THEATRO CIRCO – BRAGA, pelas 11 horas.

ALMOÇO – QUINTA DA MACHADA – 13h30

A Ementa:

APERITIVOS: Rissois + Bolinhos de bacalhau + Croquetes de Vitela + Panadinhos de perú + Caprichos + Camarão + Presunto + Chouriça assada + Rojões + Tripas + Moelinhas + Broa caseira acompanhadas de várias bebidas de aperitivo.

QUENTES: Canja de galinha + Bacalhau recheado / Filetes de pescada e Vitela assada

SOBREMESAS: Mesa de doces e frutas

BAR: Whiski, licor Beirão, Croft, Gim, Martini, Refrigerantes, Vinhos Verde e Maduro (brancos ou tintos)

BOLO DE FESTA ACOMPANHADO DE ESPUMANTE

CAFÉ E DIGESTIVOS

Um abraço e… até o próximo dia 1.



Luís Massa ( Novembro de 2011)




9º CONVÍVIO - A (LOCAL ENCONTRO DE 2011) B (QUINTA DA MACHADA)

TELA DE CENA

TELA DE CENA
THEATRO CIRCO

UM POUCO DE HISTÓRIA SOBRE O THEATRO CIRCO

Estávamos em 1906 e a cidade de Braga, como o resto do País, assiste a um grande desenvolvimento teatral. O então Presidente da Câmara Municipal de Braga (Artur José Soares), conduziu um grupo de bracarenses a idealizar um teatro muito maior, o THEATRO CIRCO, para assim satisfazerem a necessidade da cidade. Na data a cidade possuia uma pequena sala de teatro (teatro São Geraldo) que se localizava precisamente onde hoje fica o Banco de Portugal. Construído o Theatro Circo o velho Teatro São Geraldo é vendido ao Banco de Portugal, que aí edificaria mais tarde a atual delegação. O Theatro Circo foi projetado pelo Arq. Moura Coutinho e inaugurado em 21 de Abril de 1915. Moura Coutinho que também projetou os edifícios do Banco de Portugal. O Nosso Café, Asilo Conde Agrolongo e outros. No período compreendido entre 1918 e 1925 o Teatro assiste a grande espetáculos, como as óperas de Puccini, Aida, de Verdi e de muitos outros artistas. O Cinema sonoro chega na década de trinta e exibições de filmes, como os de Charles Chaplin e de Rudolfo Valentino levam ao declínio das artes do teatro.

8º CONVÍVIO - 1 DEZ 2010

2010/Dezembro/01

NOVO BANQUETE E SÁ CAMARADAGEM

É verdade … Novo convívio se alcançou com franca e saudável amizade. Esta confraternização anual, de velhos companheiros de armas, deixa ficar no ar sempre uma grata recordação, daqueles tempos idos dos quais todos temos grande benefício em os recordar.

O dia estava lindo, com um sol aberto nos agasalhando as faces e um céu com a sua cor perfeita, o azul celeste. Um dia perfeito para se celebrar o convívio.

Eram dez horas e pouco e já estava eu a tomar o pequeno-almoço no “Colinatrum – Café”, local de onde avistava a chegada dos Companheiros ao local do encontro, ali bem pertinho, no outro lado da Rua.

Para lá me dirigi, os cumprimentos e abraços da praxe e lá fomos todos para o interior do “Museu D. Diogo de Sousa”.

Acerca do Museu

O Museu Regional de Arqueologia D. Diogo de Sousa é um organismo público, dependente do Instituto dos Museus e da Conservação e do Ministério da Cultura definido na sua Lei orgânica como um museu regional de arqueologia.

O Museu foi criado em 1918, como museu de arqueologia e arte geral, como o objectivo de obstar à dispersão do património local até então na posse de particulares e outras instituições.

Em 1980, com a sua revitalização a missão do Museu foi redefinida como um organismo científico-cultural no âmbito disciplinar de arqueologia, passando a exercer as suas actividades básicas nos domínios do apoio à investigação, da museologia, da divulgação cultural, do apoio ao ensino e à defesa e preservação do património arqueológico regional.

História

O nome do Museu está associado ao arcebispo D. Diogo de Sousa (1461-1532), a quem se ficaram a dever importantes medidas de remodelação urbanística em Braga e o facto de ter reunido os testemunhos arqueológicos mais antigos desta cidade, até então dispersos.

Entre os séculos XVI e XIX registaram-se algumas iniciativas em prol da criação de um museu, mas só em 1918 surgiu o “Museu de História da Arte e Arqueologia”.

Mercê de circunstâncias adversas, o museu não teve um funcionamento regular até 1980, altura em que foi revitalizado, como Museu Regional de Arqueologia.

De então para cá tem desenvolvido a sua actividade no âmbito da preservação e divulgação do património arqueológico local e regional, tendo aberto ao público em Junho de 2007.

Dependente do Instituto dos Museus e da Conservação e do Ministério da Cultura, o Museu integra a Rede Portuguesa de Museus e ainda o conjunto de Museus do Eixo Atlântico.

O Edifício

As instalações do Museu foram projectadas para a zona arqueológica mais significativa e melhor preservada da cidade de Braga.

O projecto arquitectónico é da autoria de Carlos Guimarães e Luís Soares Carneiro e desenvolve-se em três corpos, articulados entre si – o sector técnico e de serviços, a cafetaria e a área destinada ao público. O sector técnico engloba um laboratório de restauro e demais sectores de actividade relacionados com o estudo e valorização das colecções, deste e de outros museus, na região.

O projecto da Loja, da Recepção e das Salas de Exposição Permanente é da autoria de Ana Leandro.

A área destinada ao público integra os espaços expositivos, um auditório, loja, biblioteca e serviço educativo.

Para além destes equipamentos o Museu possui amplos espaços exteriores ajardinados, de livre acesso ao público.

No auditório passaram um pequeno filme sobre as descobertas arqueológicas da Brácara Augusta. Terminado o mesmo fomos guiados para algumas salas onde se encontrava o espólio descoberto durante as escavações.

O tempo ia passando e, no conjunto do grupo, não avistava velhos companheiros como o Fernandes, o Guedes, o Pereira. Outros, que não os descubro desde o tempo da vida militar, e com os quais mantive saudável camaradagem e bem-querer, como o José Alberto Ferraz da Silva, o Ramos (de Lisboa), o Furriel Amorim (Arcos Valdevez), o Pereira (da Cónega/Braga) e outros.

Terminada a visita ao Museu D. Diogo de Sousa fomos para a Capela de São Sebastião das Carvalheiras, onde se celebraria missa.

Acerca da Capela

A actual Capela de São Sebastião das Carvalheiras começou a ser construída em 16 de Novembro de 1715, após ter sido demolida a antiga ermida. Ficou concluída em 18 de Janeiro de 1717 e foi inaugurada no dia 20 de Janeiro desse ano, pelo Arcebispo de Braga D. Rodrigo de Moura Teles.

A anterior ermida, com uma orientação oposta á actual, teria sido construída no ano de 1348, data da fundação da Confraria de São Sebastião. Governava em Portugal o Rei D. Afonso IV.

O Arcebispo D. Diogo de Sousa mandou fazer nela grande obra, como ladrilhar a Ermida, com degraus bem-feitos e um alpendre com nove colunas. Foi pela ocasião da grande peste de 1505, no reinado do Rei D. Manuel I.

No tempo do Arcebispo D. Gaspar de Bragança, irmão do Rei D. José, houve uma grande peste em Braga, no ano de 1770. Para tranquilizar os habitantes de Braga, mandou o Senhor Dom Gaspar que fosse conduzida para a catedral a devota imagem de São Sebastião e com ela se fizesse uma devota procissão, que teve lugar na tarde de 28 de Janeiro de 1770.

No fim do séc. XIX, foram feitas obras na Capela que incluíram, segundo se crê, um recuo do altar-mor e restauro das imagens.

Estamos no Séc. XXI e a Capela carecem de obras urgentes

Acerca do Santo

São Sebastião, pela nobreza do sangue e ainda mais pelo seu valor pessoal e pelo da família, foi escolhido, entre todos os oficiais do exército Romano, para o lugar de Capitão, da primeira coorte, por Diocleciano, imperador Romano e diabólico perseguidor dos Cristãos existentes no seu Império.

Vendo nesse cargo um meio providencial para ajudar com sua influência trabalho e bens os seus irmãos na fé martirizados por força das leis imperiais, aceitou o lugar.

Uma vez no exercício das funções não poupou as suas forças para com a devida prudência alertar os cristãos que vacilavam na fé e fortalecer com as suas ardentes exortações e admirável exemplo os que pareciam recear a violência dos tormentos.

Informado da fé que enriquecia a alma de São Sebastião e ainda do apostolado que exercia junto dos cristãos perseguidos, o Imperador Diocleciano, que conhecia o valor militar do Capitão da primeira coorte, usou todos os seus meios, desde as promessas aliciantes às ameaças e terror, para levar São Sebastião a afastar-se da Igreja de Cristo.

Firme na fé, São Sebastião preferiu perder o cargo, os bens e a própria vida, a ser infiel à doutrina do Evangelho, a cuja sombra entregou a alma ao Criador.

Chegados á Capela de São Sebastião tiramos a foto do grupo e logo entramos na Capela para assistir á celebração da Missa.

Mas nestes encontros nem tudo é contentamento. Por vezes nos esperam penosas surpresas. E passo a explicar:

Estou dentro da Capela de São Sebastião e vejo o Lino Cibrão a dirigir-se a uma Senhora e familiares, na Capela presentes, a expressar-lhes as sentidas condolências!

Pergunto: “O que se passa?”

Respondem: “Foi o Pereira que faleceu”.

Quais Pereira? O da Cónega?

Não, vê esta fotografia.

Logo um pesar me envolveu. O Pereira, companheiro que sempre participava no convívio, acompanhado continuamente com grande sorriso e enorme paixão, tinha falecido em Abril e, quem estava lá na Capela, era uma Senhora de luto, a Viúva, e filhos do Manuel Sousa Pereira.

Este Companheiro, que em Abril partiu para a derradeira viagem, veio comigo (e com o Guedes) do RAL 4 (Unidade Militar onde tiramos a especialidade de "Escriturário ou Amanuense") para nos apresentar no RI 8. Chegados ao RI 8, já noitinha, fomos mandados para a caserna da “Formação”. No dia seguinte, logo de manhã, aparece um ordenança que nos diz que temos de “ir lá abaixo” prestar provas. Sendo eu de Braga, “ir lá para baixo” queria dizer “ir para o DRM 8”.

Bem, lá fomos os três “lá para baixo” prestar provas. E afinal aonde fomos parar?

Ao B.M. Batalhão de Mobilização – Secção de Recrutamento!!!

Os companheiros amanuenses que lá estavam, já no términos do tempo do seu serviço militar, pedem-nos para fazer uma pequena prova de dactilografia e, talvez azar meu, fui o primeiro a prestar prova. Assento-me á frente de uma máquina de dactilografar, ponho os dedos a manobrar no teclado da máquina e, ainda não tinham passados dez segundos, logo avisam: “Meu Tenente (era o Tenente Freitas) pode mandar os outros embora pois já temos o que queríamos”. E PUMBA lá fiquei eu naquela Secção, que mais tarde viria a constatar, era daquelas onde o trabalho nunca faltava, e serviços de escala também não !

Mas o engraçado desta história depreende-se com o facto de o Pereira querer lá ficar, no B.M., (confidenciava-me que conhecia muito bem o Tenente Freitas) e não queria ir para o DRM8. Ainda, na minha frente, falou com o Tenente tentando fazer, a todo o custo, a troca comigo mas… quer o Tenente Freitas, quer o Sargento-Ajudante, quer os Companheiros no Batalhão de Mobilização, não deixaram concretizar a troca.

Tinha que deixar esta "memória" aqui expressa em homenagem do Companheiro Pereira. PAZ Á SUA ALMA.

A Missa foi celebrada pelo Senhor Padre Veloso e o Faria foi o "auxiliar".

Dentro da Capela., ao nosso lado direito, estava pendurado uma espécie de bidão que nos trazia alguma curiosidade. Interrogado o Faria (velho conhecido amigo) o que aquilo era, me informou: Chama-se "Rolo" e servia para aluminar as procissões no seu percurso. O interior do Rolo ainda contém centenas de metros de pavio enrolado (ver fotos) que seria desenrolado através das ruas por onde passava a procissão.

Finda a cerimónia foi então, como os Companheiro também o foram, para o aprazível repasto que iria ser servido no Restaurante "Abadia d'Este". Lá chegados deparamo-nos com um agradável e admirável espaço verde, com lindas e esplendorosas palmeiras e outras árvores.

No interior do Restaurante esperava-nos uma sala, isolada dos outros serviços prestados pela Casa, com agradável vista paisagística, onde todos sentimos a privacidade pretendida.

De imediato, e porque já passavam das 14 horas, começamos pelas entradas, bem quentinhas, muito saborosas.

O convívio estava no auge, sentia-se na cara dos presentes uma saudável satisfação por lá estarem. Por mim digo, É REALMENTE UM CONVÍVIO E PERAS. Sinto que sou um privilegiado em pertencer a este grupo de Companheiros. Bem-haja.

Voltando atrás, aos comes e bebes, o Restaurante "Abadia d´Este" não deixou ficar mal os organizadores deste encontro. Serviram com profissionalismo, rigor e grande qualidade.

Conforme a ementa previamente enviada aos convivas, náo faltaram as bebidas de aperitivo, os bolinhos de bacalhau, o chouriço assado em aguardente, o presunto laminado, e terrinas de barro que continham bem quentinhas a “mão de vaca c/ feijão branco” e a “carne de porco à alentejana”.

Os vinhos eram servidos conforme o gosto e o paladar de cada um. Eu fui no verde/branco da “Quinta do Salgueiró”, propriedade do Presidente da Câmara Municipal de Braga, o Eng. Mesquita Machado, que por sinal, também connosco prestou serviço militar no edificio do Comando do RI 8.

O dia já ia longo e somos servidos com umas boas “Papas de Sarrabulho” acompanhadas com os tradicionais rojões, tripa de porco frita, farinhote frito às rodelas, sangue de porco frito, fígado de porco frito e castanha frita.

E por falar em Papas de Sarrabulho todos devem saber que é um prato que demora muito tempo a preparar a sua confecção. Atentem só a receita para a confecção e preparação das “Papas de Sarrabulho à moda de Braga”:

PAPAS DE SARRABULHO À MODA DE BRAGA

As papas de sarrabulho são um prato de Inverno, por três motivos:

1º - A matança do porco para ser salgado e colocado em salgadeiras, agora substituídas por arcas;

2º - No Inverno não há varejas, moscas, ou o calor para as deteriorar;

3º - Trata-se de uma comida “pesada”, própria do Inverno e não do Verão, que deve ter sempre presente um vinho verde tinto.

PREPARAÇÃO PARA +/- 24 DOSES

- 1 Galinha, de preferência caseira; 1,750 Kg de carne da veia; 1 Kg de fressura de porco; 1 pernil fumado (ou osso velho da suã); 1 salpicão; 1 pedaço de presunto; ½ kg de toucinho magro; 1 chouriço de carne; 1 chouriço de sangue; três dúzias de trigos secos (+/- 4 dias); Alguns limões; Muitos cominhos; Sal e pimenta branca q.b.; Sangue de porco esfarelado, ao gosto de cada cozinheiro.

PREPARAÇÃO DA “BONECA COM ESPECIARIAS

3 cravinhos da Índia, pimenta preta/branca em grão, noz moscada, salsa, alho, loureiro e hortelã pimenta,

CONFECÇÃO DAS PAPAS DE SARRABULHO

Na véspera:

a) – Coloque numa panela todas as carnes, juntas com a “boneca”, deitando água até as cobrir e deixe cozer bem, até as mesmas ficarem aptas e desfiar;

b) – Desfie as carnes à mão, muito fininhas, e triture a fressura. Reserve os ossos, pele c/ alguma gordura da galinha para ferver com água para acrescentar às papas, se necessário. A água da cozedura é passada num coador, para retirar qualquer bocado de ossos;

c) – Corte os pães em pedaços muito pequenos.

NO DIA EM QUE FOREM SERVIDAS

a) – Põe-se a ferver a água que foi coada:

b) – Coloca-se o pão já partido e mexe-se com uma colher de pau;

e) – Junta-se as carnes desfiadas sem parar de mexer;

d) – Tempera-se com sal e rectifica-se com pimenta, se necessário.

e) – Deixa-se cozer +/- 1 hora até engrossar e mexa com um garfo de dentes compridos para não em borbotar;

f) – Quando focarem espessas deita-se o sangue da galinha, mexendo sempre e deixa-se ferver mais uns segundos.

NA MESA

Polvilhe as papas com bastantes cominhos e sumo de limão, a gosto de cada um.

ACOMPANHAMENTOS

As Papas de Sarrabulho à Moda de Braga devem ser sempre acompanhadas com:

Rojões à Moda do Minho;

Tripa de Porco frita;

Farinhote frito às rodelas;

Sangue de Porco frito;

Fígado de Porco frito.

Vinhos: Experimente acompanhar com o “Vinhão” vinho verde tinto de Ponte de Lima. Simplesmente soberbo.

A noite se aproximava e chegam aprazíveis e frescas sobremesas, como a salada de frutas, pudim caseiro, um lindo bolo de cerimónia e o respectivo Espumante natural, seguido de um bom café, quente, e para o acompanhar um Whisky, ou então um brandy “Macieira” ou “Croft”, Aguardente Velha ou o já tradicional e delicioso “Licor Beirão”.

Entretanto, como lembrança deste encontro, recebemos dos organizadores uma peça em “acrílico”, melhor dizendo, uma peça em Cristal, formato paralelepípedo, contendo no interior uma foto do Convento do Pópulo (antigo edifício do D.R.M. 8).

Lentamente, a sala ia esvaecendo-se há medida que os Companheiros se despediam um dos outros, sempre com aquela alegria no corpo e o pensamento na cabeça de que:

PARA O ANO ESTAREMOS TODOS JUNTOS NOVAMENTE

ASSIM DEUS O DESEJE

Bom Natal

Feliz e Próspero ano de 2011

Cheio de Saúde e Paz

Luís Massa (2 de Dezembro de 2010)